Sacrifício

O Sacrifício de animais ocorreu em quase todas as religiões do mundo. Na Europa, na África, na Ásia até as Américas, cada cultura teve a prática deste evento. A maioria dos sacrifícios foram realizados para apaziguar divindades descontentes, para assegurar prosperidade e até para prever o futuro. No culto romano, os animais foram sacrificados e suas entranhas interpretadas pelos sacerdotes. O tamanho a forma e marcações do fígado e da vesícula biliar eram observados; se alguma coisa apresentava problemas ou a interpretação não era favorável, um novo animal seria abatido.

Quase todas as culturas têm mostrado sinais de prática de sacrifícios incluindo os Hebreus, os Astecas e os Hindus. Os romanos e os gregos contavam com este ato em certos eventos. Vários festivais como o Equirria (também conhecido como festival de Marte), e os Eguns traziam sacerdotes que realizavam os rituais envolvendo sacrifícios de bodes e muitas vezes até de um touro.

Durante os dias da Roma antiga, às pessoas mais importantes na história eram dados funerais elaborados, que decorre uma tradição que remonta ao inicio da República Romana. No cortejo funeral os enlutados andavam à frente da procissão, e os descendentes usavam máscaras do falecido. Este fato também é obervado até os dias de hoje no culto aos Eguns e Geledé da religião africana onde o uso da máscara mortuária possibilita a invocação dos mortos.

O primeiro sacrifício da história da humanidade se vê quando depois do pecado original Deus proveu peles de animais para cobrir a vergonha de Adão e Eva. O sangue foi derramado para cobrir seu pecado. Os aventais que eles próprios fizeram de folhas não lhes tirou a nudez e a vergonha, nem encobriu o pecado. Só o sacrifício foi suficiente para resolver a situação. O sacrifício de animais aparece novamente quando os dois filhos de Adão trouxeram oferendas a Deus, brigando depois, pois Deus aceitou apenas o sacrifício de Abel que ofertou o melhor de seu gado, e não aceitou o de Caim que deu apenas os restos de seus frutos; mais tarde, também Noé ofertou os animais e aves permitidos logo após o dilúvio. Depois de deixar a Mesopotâmia, Abraão foi chamado para sacrificar o seu único filho; no último momento, Deus providenciou um carneiro para ser sacrificado no lugar de Isaac. Foi através do sacrifício de um animal que a aliança de Deus com Abraão foi cumprida.

Com a propagação da humanidade em todo mundo, espalha-se a prática do sacrifício. Até pouco tempo, historicamente falando, todas as tribos da terra ofereciam animais em sacrifício ao seu conceito de divindade.

Nas religiões de origem africana, ainda hoje, a prática do sacrifício se faz presente. Os animais são sagrados, como na bíblia antiga, como oferenda aos deuses e ancestrais, na cura, na iniciação e em outras diversas cerimônias que fazem partes dos rituais da cultura originária africana. Além disso, ao contrario do que se pensa, os animais embora importantes, não são o foco central da maioria das cerimônias. Eles são apenas ofertas consagradas e sua carne serve para as refeições comunais para os iniciados compartilharem com os Orixás, antepassados, familiares, convidados e os pobres.

Toda carne dos animais sacrificados serve como alimento, cujo preparo envolve uma série de práticas rituais essenciais para busca de boas energias, proteção etc.

A religião africana tem um dos rituais mais antigos do mundo, onde os ritos sagrados do sacrifício de origem ainda existem, usando esta força transformadora para aproximar as divindades em busca da solução dos problemas cotidianos que envolvem os indivíduos e a comunidade.
O sangue possui vida e uma energia elementar indispensável em um ritual de iniciação. As vísceras dos animais tem objetivo de produzir o axé, a força, energia vital que faz parte da essência desta cultura. Até mesmo o couro serve para confecção dos tambores e atabaques utilizados nas diversas cerimônias dos terreiros de origem africana.

Muitas vezes o sacrifício de animais nos rituais é mal vista, talvez devido à má impressão visual que causam, associando esta pratica à feitiçaria, no entanto estas pessoas ignoram a crueldade envolvida no sacrifício de animais abatidos para consumo, seja qual for o método usado. O que dizer do peixe, animal que agoniza por horas até a morte, e mesmo assim faz parte do cardápio da maioria dos críticos do sacrifício religioso.

Quem conhece os preceitos e os fundamentos da religião africana sabe que muitas vezes o sacrifício de um animal às divindades nos livra do sangue derramado pelas ruas, dos acidentes, das doenças, da má sorte, em fim a troca de energia nestes casos acaba por dar proteção em todos os sentidos, às comunidades inteiras participantes ou não do culto dos Orixás.

Um sacerdote ao fazer o sacrifício, pede a interferência positiva dos Orixás a todos que fazem parte daquela comunidade religiosa, e de maneira geral a todos os necessitados de ajuda, para aqueles que se encontram enfermos, aos desamparados, às famílias que sofrem com problemas que envolvam maus vícios, aos aflitos, às crianças por uma boa criação, ao delinquente por uma nova vida, e assim por diante. Muitas curas se têm no dia a dia dos terreiros através do sacrifício, onde uma ave é entregue no lugar da pessoa e ela fica curada. Pessoas desenganadas pelos médicos encontram a cura dentro das casas de religião e vivem por muitos anos com saúde.

No contesto atual o abate ritual mantém-se dominante nas culturas africanas em todo mundo. Tornou-se uma identidade cultural. A comunidade africana tem uma cultura profundamente enraizada e definida pelo seu reconhecimento no mundo espiritual. O derramamento de sangue é visto como a oferta de uma vida para outra, como a vida é entendida como contida no sangue. Quando um animal é oferecido para o sacrifício, esta prática é feita por pessoas experientes, um ancião, um sacerdote ou sacerdotisa que representa a comunidade religiosa, e com preparo suficiente com a finalidade de cumprir os preceitos exigidos dentro do culto aos Orixás. Isto significa que o animal foi tratado com a sensibilidade possível, nas circunstancias fatais.

Na religião afro-brasileira um animal é abatido apenas para reais celebrações às divindades, e a carne consumida pelos participantes, o que deve ser visto com a mesma naturalidade de quando um fazendeiro ao receber um honrado convidado, imediatamente ordena que seja sacrificado o melhor entre os animais e o serve em banquete ao visitante. A diferença é que o sangue deste animal foi jogado fora enquanto que o abatido no terreiro faz parte de uma oferta ao Orixá. Estes abates são considerados como parte da identificação cultural e faz parte da defesa moral da prática tradicional por razões culturais e devem ser respeitadas.

Ìjèsà

Ilexá é uma cidade histórica, situada no estado de Osun (Oxum), localizado no sudoeste da Nigéria, cujo povo ficou conhecido como nação Ijexá; localiza-se na interseção de Ilê Ifé, Oshogbo e akure. A cidade é uma das mais tradicionais da história do povo yorubá, já chegou a ser a capital do reino de Oyó, nos tempos do império; e no século XIX com a queda de Oyó, Ilexá se tornou sujeito a Ibadan. Das cidades e aldeias desta região da Nigéria , Ilexá é a maior, com uma população com mais de cem mil habitantes nos dias de hoje; é um centro agrícola e comercial, cujos principais produtos são: o cacau, noz de cola, óleo de palma e inhame. Ilexá possui 18 escolas secundarias e também uma academia de educação do estado, e tem um grau de unidade cultural e lingüística que se distingue dos outros povos. A cidade tem rede de estradas que contribui para o sistema de esferas comerciais que ativa a distribuição de produtos dentro e fora da região.

A parte meridional da região era uma floresta que se transformou numa área de produção de cacau e noz de cola. Na parte norte há uma vasta plantação de inhames e milho; além de outros produtos que além de serem consumidos contribuem com o comércio com outras cidades importantes da área, inclusive Ilê-ife, Osogbo, Akure, e mais adiante com Ibadan e Lagos, além das outras cidades da Nigéria. As estradas principais que ligam Ilexá com outras regiões são pavimentadas, mas também há lugares onde a estrada é de chão batido, que dificulta a passagem principalmente em dias de chuvas.

Como em todas as comunidades yorubás, a maior parte dos comerciantes são mulheres; elas são mulheres de negocio que operam pequenos empreendimentos. A cidade de Ilexá tem a maior esfera comercial na região. O mercado, localizado perto do palácio do Obá (rei), tem mais de mil comerciantes, que vendem por atacado e varejo e ainda exportam seus produtos. Muitas pessoas de Ilexá são fazendeiras que praticam a horticultura, onde a terra é cultivada pelos homens, enquanto as mulheres se empenham no comércio. Plantam arroz, bananas e uma grande variedade de legumes. Algumas pessoas vão trabalhar fora da cidade durante um período de tempo ou até se aposentarem, e ao retornam investem em pequenas fazendas, tais como: viveiros de peixes, produção de frutas cítricas, produção de mel em pequena escala e outros empreendimentos econômicos baseados em produção de comida.

Há um grupo de pessoas que formaram organizações que enfocam projetos para o desenvolvimento das atividades da comunidade. Existe uma organização regional chamada Grupo de Solidariedade de Ilexá, que busca trazer membros de todas as comunidades para planejar, organizar e incentivar o desenvolvimento da região. Eles já publicaram várias ideias de desenvolvimento industrial em Ilexá que deram certo.

O Negro no Rio Grande do Sul

Ao contrário do que se pensavam os afrodescendentes também contribuíram para a formação histórica, social e econômica do Rio Grande do Sul. A participação dos negros na formação histórica gaúcha não mereceu ainda as atenções devidas da historiografia, que por muitos anos negou a presença destes em território gaúcho, alegando ter a província do Rio Grande do Sul uma formação histórica diferenciada do restante do Brasil.

A presença de afro-brasileiros no extremo sul do país é anterior à fundação oficial do Rio Grande do Sul lusitano, ocorrida no século XVIII. Diferente de outras etnias, os negros tiveram sua presença no território gaúcho pela coerção, ou seja, foram trazidos à força como escravos para trabalharem na província gaúcha assim como já o faziam no restante do território brasileiro.

A participação dos negros no Rio Grande do Sul pode ser comprovada através dos vários censos realizados no século passado. O censo de 1814 nos apresenta uma população significativa de afro-brasileiros, em torno de 36,7%, contra 45,6% de brancos. Os dados demonstram também ser Pelotas a cidade gaúcha com maior concentração populacional de afro-brasileiros, onde estes ultrapassam os 60% da população contra 29,4% de brancos. O caso de Pelotas ter a maior concentração de escravos se justifica devido ao fato de ser a mesma o grande centro econômico gaúcho do século XIX, o que se deu pela enorme concentração das charqueadas na região. As charqueadas foram a principal atividade econômica gaúcha no século passado. Responsáveis por mais de 85% das exportações gaúchas, como também pela maior concentração de escravos em estabelecimentos produtivos no Rio Grande do Sul, tivemos estabelecimentos charqueadores com mais de cem escravos, o que demonstra a importância da escravidão negra para a economia gaúcha.

Não foi somente na economia que os negros se destacaram no Rio Grande do Sul. Eles também tiveram participação efetiva nos confrontos bélicos gaúchos, onde se destacaram principalmente na Revolução Farroupilha. A participação dos afrodescendentes deu-se através dos escravos que, em troca de sua carta de alforria, iam para frente de batalha lutar por uma causa que não era sua, mas sim dos grandes latifundiários gaúchos descontentes com o governo central. Os negros “farroupilhas” foram chamados de lanceiros negros e participaram do movimento até o extermínio deles próprios, extermínio este fruto de uma traição farroupilha: os lanceiros tornam-se um empecilho para o acordo de paz entre farroupilhas e imperiais, pois os imperiais não aceitavam que fossem dadas as alforrias prometidas aos escravos, como fora prometido pelos rebeldes. Sendo assim, era necessário, achar uma solução para os lanceiros que não fossem a sua liberdade prometida. A solução encontrada foi a seguinte:

“Em tratativas firmadas entre Duque de Caxias e David Canabarro, ficou traçada a sorte dos lanceiros: Caxias ordenou que o coronel Francisco Pedro de Abreu atacasse o acampamento farroupilha no dia 14/11/1844, e que o mesmo não temesse o resultado do confronto, pois a infantaria farroupilha, composta por escravos, estaria desarmada, por ordem de Canabarro, conforme o “acordo secreto” entre ambos. Desta forma, com o auxílio de Canabarro, a infantaria negra foi covardemente massacrada”. Este fato dá a dimensão do tratamento dispensado aos negros do Rio Grande do Sul.

Os escravos gaúchos reagiram às brutalidades senhoriais através de fugas, assassinatos, revoltas, insurreições, etc. Se no Rio Grande do Sul nenhum quilombo alcançou a dimensão do quilombo dos Palmares, não significa que estes não tenham sido importantes também aqui. Haja visto o quilombo de Manoel Padeiro, que talvez tenha sido o mais importante quilombo gaúcho. O quilombo do Padeiro apresentava uma estrutura militar e uma rígida hierarquia e, devido a suas ações guerrilheiras, causava grande pânico na população local, assim como preocupação nas autoridades constituídas que, com razão, temia, ataques dos quilombos.

Assim sendo, as fugas, as revoltas e os quilombos permaneceram na província gaúcha até 1888 quando da promulgação da Lei Áurea, lei esta que assinalou o termino da escravidão legal, mas não o fim das lutas do negro.

O Babalorixá Príncipe Custódio

Um homem poderoso, influente, um líder espiritual e conselheiro de políticos gaúchos como Julio de Castilhos e Borges de Medeiros. De Benin, na África até Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, o príncipe negro traçou uma história cheia de mistérios.

A invasão inglesa em 1897 força um grande número de nobres africanos a saírem de Benin e procurar refúgio em outras regiões da África. São João Batista de Ajudá, um porto não muito distante do reino de Benin, foi o local escolhido pelo príncipe negro para permanecer durante aqueles tempos conturbados; lá ele morou durante dois meses, acompanhado por oficiais ingleses e por parte do seu conselho de chefes, dali embarcado para o Brasil.

Custódio Joaquim de Almeida, nome adotado no porto de Ajudá. Seu nome tribal era Osuanlele Okizi Erupê, filho de Oba Ovonramwen (oba quer dizer Rei em Yorubá), foi um fervoroso opositor britânico. Existem muitas histórias em relação à saída do príncipe de Benin, todas porém estão associadas à invasão britânica. Osuanlele teria feito um acordo para deixar o país e viver no estrangeiro, onde receberia mensalmente uma pensão do governo inglês.

Em 2 de setembro de 1898, o príncipe Custódio, pisa em solo brasileiro, na Bahia, onde permanece por um tempo e vai para o Rio de Janeiro, ficando aproximadamente dois meses.

Através de consultas ao jogo de búzios, Custódio é orientado pelos Orixás a seguir para o sul do Brasil, Chegando a cidade portuária de Rio Grande em 1899, e por prováveis perseguições que tinham sido enviadas de seus inimigos na África ele vai para a cidade de Pelotas, no ano de 1900, onde conheceu o político Julio de Castilhos, que o procurou como último recurso para remediar um câncer que tomava conta de sua garganta. Seguindo orientação dos Orixás, o príncipe chega em Bagé, e acaba fortalecendo toda questão da religião africana, que já existira no sul com muitas ressalvas.

Homem com poder de mobilização dentro da comunidade, uma pessoa que conseguia muitas coisas, e sua fama de curandeiro já percorria todo país, e foi em busca de cura que Julio de Castilhos convidou o príncipe para vir morar em Porto Alegre.

Com a aprovação dos Orixás, Custódio Joaquim de Almeida chega em Porto Alegre para nunca mais sair. Residia com sua corte na rua Lopo Gonçalves, 498 onde recebia várias personalidades, tanto do Rio de Janeiro, da África que o procuravam, como os políticos locais.

A presença de Custódio em Porto Alegre e o seu relacionamento com grandes políticos contribuiu muito para que não houvesse perseguições às casa de religião, o que se torna bem marcante após sua morte.

Preocupada com as lutas entre chimangos e maragatos dona Carlinda, esposa de Borges de Medeiros, foi procurar o príncipe negro em busca de proteção para o marido. O poder da religião africana praticada por Custódio encantava a alta sociedade da época e trazia a sua casa gente simples e visitas ilustres; ele já mais fechava as portas a qualquer pessoa, os necessitados o procuravam com os mais diversos fins; as mulheres ele encaminhava para fazer trabalhos domésticos, e os enfermos ficavam até serem curados das doenças e debilidades.

Sempre bem vestido, desfilava pela cidade em uma carruagem, puxado por uma parelha de cavalos brancos e pretos; era proprietário de um haras, onde cuidava de seus cavalos e de vários outros políticos importantes; quando chagava a época de treinar os cavalos, ele montava as carretas e a família toda ia junta para os cavalos ser treinado no mar, marcharem no mar; levavam uma semana para chegar e era uma festa.

O mercado público de Porto Alegre era muito movimentado, e para resguardo, príncipe Custódio fez o assentamento de um Bará, que é o guardião das casas, cidades e das pessoas; na África também é comum o assentamento do Bará nos mercados.

No Rio Grande do Sul existe um número expressivo de casas de religião africana, mais de 70.000 (setenta mil casas), é quase como um quilombo, desenvolvendo uma ação social também.

Mais de um século após a chegada do príncipe negro em Porto Alegre, aqueles que praticam a religião africana, após um ritual religioso,seguem em direção ao mercado público, para cumprimentar, agradecer e homenagear o Bará que lá foi assentado por Custódio Joaquim de Almeida.

Não se sabe como Custódio escolheu o nome pelo qual se identificou aqui no Brasil, mas é curioso o fato de que o sobrenome escolhido teria semelhança com um ex-escravo chamado Manuel Joaquim d’Almeida, um Mahi da família Azima, nascido na aldeia de Hoko, e cujo nome, antes do batismo, era Gbego Sokpa. Após muitos anos na Bahia, Joaquim, ainda escravo ou já liberto, fez, entre 1835 e 1845, várias viagens à costa, a serviço de seu dono ou ex-dono e também por conta própria, até que decidiu instalar-se de vez na África, em Ágüe, onde fundou o bairro Zokikomé. Joaquim era católico convicto, ainda que católico à baiana, ganhou um bom dinheiro no comércio negreiro; era proprietário de uma casa em Salvador, tinha nove escravos a seu serviço; era credor de mercadores de escravos em Pernambuco e Havana, Joaquim d’Almeida tornou-se o maior mercador de escravos em Ágüe, e o líder local da comunidade brasileira. Uma parte de seu êxito deve-se ao fato de ter sido feito pelo rei Glidji o chefe da alfândega nas praias entre Aguê e Popô pequeno, coletando, portanto, as taxas devidas pelos navios que ali comerciavam, o que lhe dava enorme vantagem sobre seus competidores, mesmo assim não deixara de ter contato com o Brasil, principalmente com a Bahia. Joaquim d’Almeida, apesar de ser católico devoto, era também polígamo; dele identificaram-se 82 filhos. Vê-se aí uma descendência grandiosa herdando o sobrenome d’Almeida, que pode ou não ter influenciado o príncipe Osuanlele em Ajudá, quando escolheu o nome de Custódio Joaquim de Almeida.

Ajudá era o nome do reino, na realidade Huedá (ou Xweda) com capital em Savi, mas a palavra acabou por se aplicar à cidade onde os portugueses construíram a fortaleza de São João Batista.

O príncipe Custódio morreu em maio de 1935, aos 104 anos, na casa em que sempre morou na rua Lopo Gonçalves em Porto Alegre, e traçou uma trajetória cheia religiosidade e mistério que faz parte da história do Rio Grande do Sul.

Os Yorubás

Idioma Yorubá

Falado principalmente na Nigéria, o idioma yorubá é complexo e arraigado em tradições. É o segundo maior idioma da Nigéria, é falado em várias seitas difundidas pelo mundo, entre estes estão a República do Benin, Cuba, Brasil, Trinidad, e Estados Unidos.

A origem deste idioma é obscura, e não existe nenhuma evidencia conclusiva provando onde exatamente se originou. A quem diga que o idioma yorubá provém dos Egípcios, à centenas de anos atrás, evidenciados no fato de que um vasto número de palavras yorubás ser bem parecidas com as Egípcias, porém realmente, não existe nenhuma explicação formal de como surgiu o idioma na Nigéria.

Quem são os Yorubás

Os Yorubás são um dos mais importantes grupos étnicos da Nigéria, apreciam uma história e cultura muito rica. Existem várias teorias sobre a origem do povo yorubá, estas informações se agrupam cuidadosamente nas declarações via tradição oral.

Este povo parece ter se originado de Lamurudu, um dos reis de Mecca (na atual Arábia Saudita). Lamurudu teve um filho chamado Oduduwa, que é amplamente conhecido como o fundador das tribos yorubás. Durante o reinado de seu pai, Oduduwa era muito influente a atraiu vários seguidores, transformou as mesquitas, em templos para a adoração de ídolos, com a ajuda de um sacerdote chamado Asara.

Asara teve um filho, Braima, que foi educado como muçulmano, e se ressentiu da adoração obrigada de ídolos.

Por influência de Oduduwa, todos os homens da cidade, eram ordenados em uma expedição de caça, que durava três dias, em preparação para honra e culto de seus deuses. Braima aproveitou a oportunidade da ausência dos homens e tomou a cidade. Ele destruiu tudo, inclusive os ídolos, deixando um machado no pescoço do ídolo mais importante. Na volta da expedição, se deram com a cidade destruída, e foram atrás de Braima para queimá-lo vivo. Neste momento começou uma revolta que desencadeou uma guerra civil.

Lamurudu foi morto e seus filhos expulsos de Mecca. Oduduwa e seus seguidores conseguiram escapar, com dois ídolos, para Ilê Ifé (ainda ilê ifé na Nigéria moderna). Oduduwa e seus filhos juraram se vingar; mas Oduduwa morreu em Ilê Ifé, antes de ser poderoso suficiente para lutar contra os muçulmanos de seu país. Seu primogênito Okanbi, comunmente chamado de Idekoseroke, também morreu em Ilê Ifé. Oduduwa deixou sete príncipes e princesas. Destes originaram-se várias tribos yorubás. A primeira era uma princesa que se casou com um sacerdote e se tornou mãe de Olowu, que se tornou rei de Egbá. A segunda princesa se tornou mãe de Alaketu, progenitor do povo de ketu; o terceiro se tornou rei do povo de Benin; o quarto Orangun, se tornou rei de Ila; o quinto Onisabe, se tornou rei de Savé, e o sexto se tornou rei dos Popos. O sétimo e último a nascer era Oranyan (Òrànmíyàn) (Odede) , que se tornou progenitor dos yorubás; ele era o mais jovem, mas eventualmente se tornou o mais rico. Ele construiu a cidade de Oyó Ajaka, hoje Oyó.

De Ilê Ifé, os descendentes de Oduduwa espalharam-se por outras zonas da região yorubá; entre os estados que fundaram estão Ijesha (Ijexá), Ekiti e Ondo a leste; ketu, Sabe e Egbado a oeste; Oyó a norte, e Ijebu a sul.

Oranyan, fundou a dinastia de Oyó, que veio a ser o mais conhecido dos estados yorubás, em virtude de seu domínio político-militar sobre grande parte do sudoeste da Nigéria e da área que é hoje a República de Benin. Estas estruturas políticas e militares tem sido muitas vezes citadas como modelos de organização, onde figurava o Alafin ou rei, considerado como um chefe cuja posição na terra era comparável à do ser Supremo no Paraíso. O Alafin governava com a ajuda de seus poderosos conselheiros, os Oyó Mesi, que eram numericamente sete e que tinham também a seu cargo a escolha do novo Alafin, de entre os filhos do rei anterior. O chefe dos Oyó Mesi, o Basorun, tinha como funções às de chefe de estado e de conselheiro principal do Alafin, enquanto que o exército de Oyó era chefiado durante uma guerra por um grupo de nobres conhecidos por Eso, o chefe dos quais era o Are-Onakakanfo ou o generalíssimo do exército.

A Religião dos Yorubás

A religião tradicional yorubá envolve adoração e respeito a Olorun ou Olòdùmarè, o criador, dos Orixás e dos antepassados, e cultuam 401 deidades; a maior parte desses Orixás são figuras antropomorfas, que também são associadas com características naturais. As pessoas rezam e fazem sacrifícios, de acordo com suas necessidades e situação. Cada divindade tem suas regras, ritos e sacrifícios próprios. Os yorubás rezam para os Orixás para intervenção divina em suas vidas.

Olorun (o dono do céu), ou Olòdùmarè é o Deus supremo dos yorubás, ele é o criador, é invocado em benções e em certas obrigações, mas nenhum santuário existe para ele, nenhum sacerdócio organizado.

Os yorubás, também, creem que os antepassados interfiram diariamente nos eventos da terra. Em algumas cidades são feitos, anualmente festivais, onde cada Egungun dança, e é festejado. Como já vimos os yorubás, são um povo com uma cultura muito rica. Eles superaram muitos obstáculos para alcançar o ponto que estão hoje. Sua cultura e história podem ser vista ao longo do mundo, especialmente as convicções religiosas, em outras palavras, os yorubás são dos mais influentes povos do mundo.

Outra explicação que se faz a respeito do aparecimento das divindades seria que Oxalá ou Obatalá, deus da criação instalou seu reino em Ifé, lugar sagrado dos yorubás. Fala-se que Obatalá tinha um irmão mais moço chamado Oduduwa, que ambicionava executar as tarefas que Olòdùmarè confiou a Obatalá e, para tanto, fez um ebó, contando com a colaboração de Esu (Exu), que armou uma cilada, provocando muita sede em Obatalá, que se encontrava bastante cansado da viagem. Ao se aproximar de uma palmeira, usando seu cajado, furou a dita palmeira e bebeu o emu ( vinho de palma) que jorrava. Exausto embriagou-se rapidamente e ali mesmo deitou e adormeceu. Oduduwa que vinha de espreita na retaguarda, passou em sua frente, tornou-se fundador dos povos yorubás.

Olodumare

Poucos sacerdotes falam de Olòdùmarè, pois não existe nenhum altar, nenhum assentamento dedicado a ele e nenhum filho ou filha lhe é consagrado. A religião é parte essencial da cultura dos povos africanos, e acreditam que Olòdùmarè seja o ser supremo, é o Obá Orum, rei do céu. É ele acima de tudo; onipresente, ele é Olorun Alagbara, o Deus Poderoso.

Diz a mitologia yorubá que Olòdùmarè, junto com a criação do céu e da terra , trouxe para a existência as outras divindades Orixás, para ajudar ele a administrar sua criação, e a importância de cada divindade depende da posição dentro do panteão yorubá. Olòdùmarè é o Deus Supremo dos yorubás, merecedor de grande reverência , seu status de supremacia é absoluto.

Ele é onipotente – tão onipotente que para Olòdùmarè nada é impossível, ele é o rei cujos trabalhos são feitos para perfeição.

Ele é imortal – olòdùmarè nunca morre, os yorubás creem que seja inimaginável para Elemi (o dono da vida) morrer.

Ele é Onisciente – Olòdùmarè sabe tudo, não existe nada que possa se esconder dele; ele é sábio, tudo está ao seu alcance. Alguns estudiosos dizem que a religião yorubá, é a religião monoteísta mais antiga da humanidade.

Cronologia Real Yorubana

1 – Oduduwa
2 – Oranyan
3 – Ajaka
4 – Sango
5 – Ajaka
6 – Aganjú
7 – Kori
8 – Oluaso
9 – Onigbogi
0 – Ofiran
11 – Eguguojo
12 – Orompoto
13 – Ajiboyede
14 – Abipa
15 – Obalokun
16 – Oluodo
17 – Ajagbo
18 – Odarawu
19 – Kanran
20 – Jayin
21 – Ayibi
22 – Osiyago
23 – Ojigi
24 – Gberu
25 – Amuniwaiye
26 – Onisile
27 – Labisi
28 – Awonbioju
29 – Agboluaje
30 – Majeogbe
31 – Abiodun
32 – Awole Arogangan
33 – Adebo
34 – Maku
35 – Majotu
36 – Amodo
37 – Oluewu
38 – Atiba Atobatele
39 – Adelu
40 – Adeyemi eu Alowolodu

Nos dias de hoje, o rei (Obá ou Oòni) de Ilê Ifé, seria como o Papa negro, é o homem que representa toda cultura negra iniciada por Oduduwa. É o líder espiritual da cultura yorubana, sua coroa representa a autoridade dos Obás. Todos os demais Obás (reis) dependem e curvam-se a seus conselhos. Em seu palácio em Ilê Ifé estão guardados os oráculos oficiais de Oduduwa, fundador de Ilê Ifé e bisavô de Xangô. Presume-se que Oduduwa tenha vivido de 2.180 a 1800 A.C.

O Alafin de Oyó, (rei de oyó) é o líder político da cultura yorubana, na realidade é o líder dos yorubás. Senta no mesmo trono que seu ancestral Xangô ocupou. Representa o poder ancestral dos conquistadores desta raça.

Nascimento dos Yorubá

Outra formalidade importante yorubá é o nascimento de uma pessoa. Dar nome a um filho envolve a comunidade inteira, que participa dando boas vindas ao recém nascido, felicitando os pais e fazendo pedidos em conjunto para que o filho tenha um futuro feliz e afortunado.

A família, primeiramente, escolhe o nome apropriado ao filho; o nome geralmente é escolhido de acordo com as circunstancias do nascimento da criança, observando as tradições de família e até fenômenos naturais que aconteceram em torno da nascimento do bebê. Depois do nome selecionado, o pai ou um parente mais velho anuncia o dia de dar o nome que é chamado Ikomojade. Tradicionalmente, para meninos é um dia após o nascimento, para meninas é no sétimo dia e para gêmeos de ambos os sexos, no oitavo dia de nascimento. Hoje em dia a prática é feita no oitavo dia para todos os recém nascidos.

A cerimônia acontece ao ar livre, a criança deve estar com os pés descalços, e á a primeira vez que ela tem contato com os pés na terra, é a primeira vez que o filho sai fora de casa. Todos os parentes e membros da comunidade têm interesse em dar boas vindas ao recém nascido, cada pessoa trará dinheiro, roupas e outros presentes tanto para o filho quanto para aos pais. As mulheres entregam os presentes à mãe e os homens dão os presentes ao pai. Depois de todos os presentes à mãe entrega o filho a um ancião, que exercerá os rituais; é apropriado que um velho ancião seja o primeiro a guiar o filho.

Tudo começa quando um jarro de água é jogado sobre o telhado, de forma que o recém nascido é seguro de baixo e recebe no corpo a água que cairá de volta. Se o filho se manifesta gritando é considerado de bom sinal, isto indica que ele veio para ficar. A água é o primeiro dos muitos itens cerimoniais, seu uso reflete a importância do filho para a família. Após o filho ser borrifado com água o ancião sussurra o nome do recém nascido em seu ouvido; e molha seu dedo na água e toca a fronte do bebê, e anuncia o nome escolhido em voz alta para que todos ouçam. São colocadas as vasilhas contendo os ingredientes necessários para continuação da formalidade; cada ingrediente tendo um significado especial. A primeira vasilha consiste em pimenta vermelha da qual o ancião dá uma prova ao pequeno filho. A pimenta simboliza que o bebê será resoluto e terá comando acima das forças da natureza. A pimenta então é distribuída para o gosto da assembleia inteira; depois da pimenta o recém nascido experimenta água, significando a pureza de corpo e espírito, que o deixará livre das doenças; logo o ancião oferece sal ao bebê, que simboliza a sabedoria, a inteligência; deseja-se que nunca lhe falte o sal, mas que sua vida não seja salgada, que ele tenha felicidade e doçura na vida, que tenha uma vida sem amargura; depois é oferecido óleo de palma (epô) que é tocado com os dedos nos lábios do bebê, num desejo de potência e saúde. O filho então saboreia mel, e o ancião pede que ele seja tão doce quanto mel, para a família e para a comunidade, que tenha felicidade. Depois é oferecido vinho, para que o filho tenha fartura e prosperidade na vida; e finalmente o bebê recebe uma prova de noz de kola, simbolizando o desejo para boa fortuna do filho. O ancião, ou particularmente o pai da criança, pode adicionar mais ingredientes para fazer parte da formalidade, pode ser objetos que representam as divindades que a família cultua, como por exemplo se a deidade da família é Ogum, o pai exige que uma faca ou espada seja usada na formalidade, e assim por diante.

O nascimento mais importante é de gêmeos (Ibejis), o nome do primeiro nascido será Táíwo, e o segundo a nascer será chamado de Kéhìndé;

E o filho nascido depois de gêmeos será chamado de Idowu, este nascimento é cercado de superstições.

Depois do item final ser distribuído para a comunidade, começam as festividades, e todos comem e dançam numa grande alegria que durará até a madrugada.

Os Yorubás e a morte

Os yorubás e muitos outros grupos africanos acreditam que a vida e a morte alternam-se em ciclos, de tal modo que o morto volta ao mundo dos vivos, reencarnado-se num novo membro da própria família. São muitos os nomes yorubás que exprimem exatamente esse retorno, como Babatundê, que quer dizer “o pai renasceu”.

Para os yorubás, o mundo em que vivem os seres humanos em contato com a natureza, chama-se de aiê, e um mundo sobrenatural, onde estão os Orixás, outras divindades e espíritos, é chamado de orum. Quando alguém morre, seu espírito ou parte dele vai para o orum, de onde pode retornar ao aiê nascendo de novo.

Alguns espíritos são cultuados e se manifestam nos festivais de egungum no corpo de sacerdotes que se dedicam a esta parte do ritual africano, comandados pelo sacerdote chefe chamado Babansìkù; nesta ocasião transitam entre os humanos, julgando suas faltas, dando conselhos e resolvendo contendas e pendências de interesse da comunidade. Assim como a sociedade egungum cultua os antepassados masculinos do grupo, outra sociedade de mascarados, a sociedade Gèlédé, se dedica a homenagear as mães ancestrais (as Iya Nla).

Na concepção yorubá, existe a ideia do corpo material, que chamam de ara, o qual se decompõe com a morte e é reintegrado a natureza, por este motivo os sacerdotes antigos não gostavam da ideia de serem enterrados, pós-morte, em outro lugar a não ser direto na terra. A parte espiritual é formada de várias unidades reunidas: 1º emi essência vital de cada pessoa que independe de seu corpo físico e que sobrevive a morte deste, 2º o ori que é a personalidade-destino, espécie de portão espiritual para o culto, é no ori que reside a força principal de captação e re-emissão do axé, é nesta região que se determina qualquer tipo de comportamento, onde se pode reproduzir o conjunto de atitudes que correspondem às características psicológicas de um orixá. É consequentemente no ori que se manifesta o dupo que cada pessoa possui na natureza, o seu tipo de comportamental cujas características advêm da humanização de uma energia da natureza. 3º Elemi ou Eledá, a identidade sobrenatural ou identidade de origem que liga a pessoa à natureza, ou seja, o Orixá pessoal e 4º o espírito propriamente dito ou egum. Cada parte destas precisa ser integrada no todo que forma a pessoa durante a vida, tendo cada um destino diferente após a morte. O emi, sopro vital que vem de Olorum, que está representado pela respiração, abandona o corpo material na hora da morte, sendo reincorporado à massa coletiva que contém o principio genérico e inesgotável da vida, força vital cósmica do deus-primordial Olódùmarè. O emi nunca se perde e é constantemente reutilizado. O ori, que nós chamamos de cabeça e que contém a individualidade e o destino, desaparece com a morte, pois é único e pessoal, de modo que ninguém herda o destino do outro. Cada vida será diferente, mesmo com a reencarnação. O orixá individual, que define a origem mítica de cada pessoa, retorna com a morte ao Orixá geral, do qual faz parte. Finalmente o egum, que é a própria memória do vivo em sua passagem pelo aiê, vai para o Orum, podendo daí retornar, renascendo no seio da própria família biológica. No caso do egum, os vivos podem cultuar sua memória, que pode ser invocada através de um altar ou assentamento, assim como se faz para os Orixás ou outras entidades espirituais. Sacrifícios votivos são oferecidos ao egum que integra a linhagem dos ancestrais da família ou da comunidade mais ampla. Representam as raízes daquele grupo.

Na religião de origem africana, a morte de um iniciado implica na realização de rituais funerários. O rito fúnebre é denominado Arissum ou èrìsún (erissum) no Batuque do rio Grande do Sul, tendo como principal fim, despachar o egum do morto, para que ele deixe o mundo terreno e vá para o mundo espiritual. Como cada iniciado passa por ritos e etapas iniciativas ao longo de toda a vida, os ritos funerários serão tão mais complexos quanto mais tempo de iniciação o morto tiver. O rito funerário é, pois, o desfazer de laços e compromissos e a liberação das partes espirituais que constituem a pessoa, nesta cerimônia. os objetos sagrados do morto são desfeitos, desagregados, quebrados, partidos e despachados, cortando qualquer possibilidade de vínculo do egum com o mundo terreno . Nestas obrigações, há cantos específicos e danças , sacrifícios e oferendas variadas ao egum e os Orixás ligados ritualmente ao morto, várias divindades participam ativamente do rito funerário através de transe. Nos rituais funerários da nação Ijexá, costuma-se velar o corpo em casa, ou seja, no terreiro, onde há toques de tambores, danças e cantigas apropriadas. A primeira providencia a ser tomada pós-morte é despachar os Barás que pertenciam ao irúnmòle do falecido. O ponto culminante do rito, é o èrìssùn, que acontece no sétimo dia. Estes rituais variam de terreiro para terreiro, de nação para nação.

Maria Mineira Naê

Os terreiros de mina mais antigos de São Luís foram fundados por africanas que vieram para o Brasil como escravas, é o caso da Casa das Minas (Jêje-Dahomé), consagrada ao vodum Zomadonu, cuja história nos conta a saga de Agotime, rainha do Dahomé.

Desde tempos imemoriais se cultuava os Voduns da família real no Dahomé. Um clã mágico e místico iluminava o continente negro. Época de uma África conturbada, de guerras tribais em busca do poder. Durante muitos anos continuaram as lutas por conquistas de novos territórios. Muitos reis passaram e o Dahomé, que era apenas uma cidade, torna-se um país.

No palácio Dãxome, reinava Angololo. O rei tinha como segunda esposa a Rainha Agotime e dois filhos: Adandoza, do primeiro casamento e Gezo, nascido de Agotime. Entretanto sopram ventos frios sobre o Dahomé e no ato de sua morte, o rei elegeu seu segundo filho para sucedê-lo ao trono. O direito de seu primogênito foi desconsiderado por uma previsão de Fá – o senhor do destino. Adandoza assume o trono do rei após sua morte como tutor de Gezo, e Abomey tornou-se vitima de um governo tirânico e cruel.

A Rainha era conhecida em seu reino pelas histórias que contava sobre seus ancestrais e sobre o culto dos reis mortos, guardava o segredo do culto de Xelegbatá, a peste. Detentora de tais conhecimentos, o novo rei tratou de mantê-la isolada acusando-a de feitiçaria e não hesitou em vendê-la como escrava.

Agotime, Rainha, Feiticeira, Escrava descobre o seu destino. Magia…A beira de um rio manso deu-se o encontro. Notou o estranho vôo de um pássaro que mergulhava várias vezes. Ele apresentou-se como Zomadonu, rei dos Texossus, que ultrajado pela negativa de Adandoza em estabelecer o culto a seu povo, designou-a à encontrar um caminho para conduzi-los à um novo mundo onde seriam cultuados de igual maneira os Texossus, seus irmãos e primos, Reis do Clã Real do Dahomé. Assim o culto Xelegbatá renascerá.

Em Uidá, o grande porto de venda de escravos, é jogada nos porões imundos de um navio e trazida para o Brasil. O sofrimento físico da rainha, traída e humilhada era uma realidade menor pois o seu espírito continuava liberto e sobre as ondas, sem grilhão, a Rainha lidera um grande cortejo e atravessa o mar.

Nasce a ligação África-Brasil. Chega ao novo continente um corpo escravo mas um espírito livre, pronto à cumprir a sua saga e fazer ouvir daqui o som dos tambores jêjes. Seu primeiro destino foi Itaparica, na Bahia, porto do seu destino e terra santa do conhecimento, desembarca a escrava e cumpre sua missão. Vinda de uma região onde poucos escravos se destinavam ao Brasil, depara-se Agotime com muitos irmãos de cor mas não de credo.

No seu encontro com os Nagôs teve o seu primeiro contato com os Orixás e através deles a rainha escrava teve conhecimento de seu povo. Por eles soube que sua gente era chamada Negros-Minas e foram levados para São Luis do Maranhão. Contaram que não tinham local para celebrar o seu culto, pois esperavam um sinal de seus ancestrais. Agotime logo entendeu por quem esperavam. Porém a barreira da escravidão não lhe impediu de prosseguir seu caminho, pois confiava em seu vodum. Trabalhou então longos dez anos, conseguiu guardar um pouco de seu trabalho nas minas e comprou sua liberdade, prosseguindo sua viagem em busca do seu senhor e de sua gente.

Chegou no Maranhão. Terra de encantaria e de forte representação popular. Encantada terra…encontro dos deuses… Terra das festas dos povos do culto mina-jêje. Guardou essa, as tradições da Europa, pura ou mescladas com as dos naturais da terra e do negro da África, tendo assim um grande apelo folclórico. Lá os tambores afinados a fogo e tocados com alma por ogãs inspirados por velhos espíritos africanos, ecoam por festa e por religião.

É no Maranhão que Agotime, a escrava, volta a ser Rainha. Sob orientação de seu Vodum funda a “Casa das Minas de São Luis do Maranhão”. Após a fundação, Agotime recebeu o nome de “Maria”, da região da costa da mina, na África, herdou “Mineira” e de seu Vodum “Naê”. Passou então, a Rainha, a chamar-se Maria Mineira Naê. Assim, as raízes do culto foram plantadas no Brasil com a fundação da casa Xelegbatá em São Luis do Maranhão.

A Rainha e os membros da família real do Dahomé chegaram escravos, porém a barreira da escravidão não impediu de prosseguir em seu caminho. Era hábito entre os escravos mineradores guardar parte do ouro encontrado, pessoas esclarecidas embora escravizadas chegam aqui. Reis, rainhas, nobres e letrados capazes não só de suar o corpo no trabalho mas também de, mesmo sob pressão, planejar. Assim, vendo o escravo passar por suas mãos tanta riqueza passou a arrumar um jeito de guardar parte dela. A riqueza que para os senhores representava jóias, para o negro representava o mais valioso dos tesouros… a liberdade. Assim fez a Rainha Negra e com o fruto comprou sua alforria e seguiu em busca de sua gente, seu lugar e ao encontro com seu senhor Zomadonu.

Ao chegar, Agotime percorreu vilarejos, desbravou matas e alojou-se em quilombos em busca do sinal de seu senhor. Um dia cansada, ela sentou-se à beira do rio, notou então que alguém andava pelas margens em sua direção; mesmo na escuridão da noite ela reconheceu seu senhor, Zomadonu. O saudou agora como o seu Vodum e ele, como havia prometido, lhe indicou o caminho à seguir e onde parar, falou-se sobre o local onde deveria ser erguida sua casa para o culto aos reis de Dahomé. Agotime perguntou-lhe sobre sua gente, Zomadonu respondeu: Eles virão.

A rainha seguiu as instruções do seu Vodum e como lhe foi indicado construiu a primeira Casa das Minas de São Luis do Maranhão.

Zumbi dos Palmares

No final do século XVI, não se pode ainda estabelecer exatamente o ano, escravos negros de um grande engenho de açúcar no sul da capitania de Pernambuco, atacam e dominam seus amos e feitores. Viram-se assim senhores do mesmo engenho que tanto tempo havia sido o instrumento de sua opressão; mas o que fazer com a liberdade conquistada?

Sabiam que se ficassem no engenho, seriam recapturados e triste seria o seu fim; então tomam uma resolução: buscar refúgio numa região conhecida como Palmares. Até então não se tinha notícia de que alguém já tivesse incursionado naquela região temerosa. Era uma imensa selva virgem que se iniciava na parte superior do rio São Francisco e ia terminar sobre o sertão do Cabo de Santo Agostinho. A região recebera esse nome devido à abundância de palmeiras.

A região era praticamente impenetrável, mas os rebeldes não tinham muita escolha. A destemida caravana andou muitos dias antes de penetrar na selva densa e obscura. Abriram caminhos entre árvores gigantescas, mato rasteiro e muitos espinhos. Uma dessas serras, muito íngreme e com a forma de uma barriga, permitia descortinar a região por todos os lados, numa distância de dezenas de quilômetros, constituindo por si própria uma fortaleza.

No topo desta serra, abriram clareiras e levantaram choças cobertas de palha. Chamaram as choças de mocambos – do quimbundo mukambu – termo que os portugueses usaram para designar genericamente as povoações nas matas de todo o Brasil pelos escravos rebeldes. Presume-se que nem todos tenham sobrevivido à longa e dificultosa marcha através das selvas palmarinas – reza a tradição que o grupo inicial de rebeldes fora de quarenta, mas qualquer que tenha sido o número, constituiu o núcleo pioneiro da futura República de Palmares, um Estado Negro que resistiu até o fim do século XVII às incessantes tentativas de destruição da coroa portuguesa. A serra se situa hoje no Estado de Alagoas, território que aqueles tempos integrava a grande Capitania de Pernambuco.

Zumbi nasceu no começo do ano de 1655, num dos inúmeros mocambos palmarinos.

Alguns anos após sua fundação, o quilombo dos palmares foi invadido, muitos habitantes, inclusive crianças foram mortos ou feito prisioneiros. Entre estes estava um menino que foi levado pelos invasores e dado de presente ao padre português Antônio Melo, do distrito de Porto Calvo, povoação cujos limites marcavam a fronteira entre o povoamento luso brasileiro e a república negra. O padre batizou o pretinho e deu-lhe o nome de Francisco. Ensinou-lhe a ler e escrever, além de dar-lhe noções de latim. Tornou-se coroinha quando contava dez anos de idade. O padre não tratava o pretinho como escravo.

Certa manhã do ano de 1670, Francisco então com seus quinze anos, foge para a “companhia dos negros levantados de Palmares”. Mais tarde, já chefe dos palmares, Zumbi por três vezes penetrou no distrito de Porto Calvo para visitar o padre. Por ocasião da segunda visita o padre ficou sabendo que o caudilho negro trocara o nome cristão Francisco pelo nome africano de Zumbi que conservou até o seu lastimável fim.

Dois anos após sua volta, aos 17 anos, a povoação ou mocambo, a que se acolhera, elegeu-o “maioral”. Aos 18 anos, em 1673, quando derrotou a expedição de Antônio Jácome Bezerra, fora elevado a “cabo de guerra”, provavelmente um “cabo maior”. Aos 22 anos, em 1677, quando da expedição de Fernão Carrilho, torna-se comandante-geral das milícias palmarinas (“general das armas” ou “mestre de campo”), ao que parece, entretanto, na luta contra esta expedição o comando das operações foi exercido pessoalmente por seu tio Ganga-Zumba, então rei de Palmares. Ao mesmo tempo em que consolidava sua posição em Palmares, tratava Zumbi de minar a de Ganga-Zumba. As seguidas derrotas militares desencadearam profundo descontentamento na massa palmarina. Esse descontentamento se alastrou a numerosos maiorais e cabos-de-guerra dos mocambos. Atribuía-se a culpa à inépcia e à responsabilidade de Ganga-Zumba. Consta que teria comandado uma operação em estado de completa embriagues. Zumbi passa ser opositor declarado de Ganga-Zumba, e começa a conspirar para depô-lo pela força. A conspiração se espraiava e Ganga-Zumba sentiu que não poderia detê-la. Foi então quando iniciou conversações de paz com o governo colonial.

Zumbi passou à ação. A frente de tropas de seu mocambo marchou sobre os mocambos ainda fiéis a Ganga-Zumba. Em alguns houve luta fraticida, em outros a massa aderiu maciçamente. Os maiorais e cabos-de-guerra fiéis a Ganga-Zumba fugiram para Macaco com suas famílias. Zumbi marchou então sobre Macaco, à frente de tropa numerosa e aguerrida. Quando as tropas de Zumbi já escalavam a Serra da Barriga, Ganga-Zumba retirou-se as pressas para Cacaú, acompanhado de 300 a 400 pessoas.

Foi assim que com pouca resistência armada, Zumbi pode ocupar Macaco e assumir o poder na confederação palmarina. Um conselho composto de adeptos aclamou-o chefe e outorgou-lhe pleno poder. Ganga-Zumba acaba morrendo envenenado; seus homens de confiança foram massacrados.

Zumbi é líder absoluto nos Palmares. Diz a tradição que Zumbi era casado com uma mulher branca chamada Maria, mas não há como apurar a veracidade do fato. Esta mulher, reza a tradição, teria espontaneamente acompanhado Zumbi por ocasião de uma incursão realizada numa propriedade alagoana. Consta que teve pelo menos cinco filhos. Num combate contra a expedição de Manoel Lopes Galvão, recebeu um ferimento que o deixou coxo.

As autoridades coloniais viam nele o líder mais capaz e aguerrido da república negra. Zumbi dos Palmares, herói da liberdade, cuja luta pode ser comparada a de grandes generais como Napoleão e Alexandre. Só que Zumbi nunca combateu para conquistar territórios. Foi um guerreiro integral na defesa de seu povo e da sua cultura, e disparou uma flecha certeira contra o mundo escravista.

Negros alforriados e negros que fugiam iam para Palmares. Neste Palmares a povoação tinha todas as conveniências e comodidades para seu sustento por que os rios lhes ofereciam fartura em peixe, os matos caças, os troncos mel e as palmeiras ramos com que cobrem as casas, como também das mesmas folhas fazem panos para vestirem, além do sal, azeite e vinho, que a industria humana soube tirar daquelas abundantíssimas e fertilíssimas árvores.

Um dos fatores da resistência palmarina era a “prática militar, aguerrida na disciplina do seu capitão e general Zumbi, que os fez destríssimos no uso de todas as armas, de que tem muitas em quantidade, assim de fogo, como de espadas, lanças e flechas”.

Varias foram as expedições para destruir o quilombo, e muitas atitudes tomadas para enfraquecer a república palmarina, em vão, Zumbi reina absoluto.

Até que em janeiro de 1694 um imponente exército expedicionário se pôs em marcha. Domingos Jorge Velho ia no comando geral. Batedores, índios seguiram à frente para farejar emboscadas palmarinas, ao passo que uma turba de escravos-carregadores fechava a marcha.

Os expedicionários ficaram atônitos quando chegaram à vista de Macaco.

As fortificações palmarinas erguiam-se na cumiada da serra. Eram sólidas e, aparentemente, inexpugnáveis. Constituíam em uma tríplice cerca de madeira e pedras que circundavam a praça numa extensão de aproximadamente cinco quilômetros e meio. Na parte de fora haviam sido escavados largos e profundos fossos dissimulados por vegetação, e crivados de ferros pontiagudos.

Esta circunstância obrigou os expedicionários a acompanharem bastante longe as fortificações. Atarantados, os comandantes ficaram dois dias sem saber o que fazer. uma coluna de sessenta homens a mando do alferes João Montez tentou efetuar um reconhecimento, mas teve imediatamente de recuar com várias baixas entre mortos e feridos.

Num esforço desesperado para impedir o avanço dos expedicionários, os palmarinos por duas noites consecutivas deixaram suas fortificações e desfecharam violentos assaltos em que foram repelidos com numerosas baixas.

Varias frentes de ataque se lançam contra Palmares, que os recebia a balas e flechas. Quando por fim no dia 3 de fevereiro de 1694 chegaram a Serra da Barriga seis canhões conduzidos por duzentos homens.

Meio século havia que os palmarinos suportavam o flagelo quase ininterrupto de uma guerra apenas atenuada por breves intervalos de paz. A tática de que vinham usando para enfrentar esta guerra impunha periódicos e por vezes freqüentes deslocamentos da população não combatente, o abandono das casas, das lavouras, das oficinas. Tática que, em uma palavra, condenava a população a um estado de perene sobressalto. Teria mais dia menos dia de evoluir para uma definição.

As expedições vinham desenvolvendo a olhos vistos um tática crescente e eficaz que exprimia Palmares. Zumbi e sua gente haviam decidido aceitar um confronto cujo resultado seria ou a vitória ou a derrota completa.

Pelas duas horas da noite de 5 para 6, a coluna de negros iniciou silenciosamente a operação no estreito corredor à beira do despenhadeiro. Quase teve êxito, faltando passar apenas a retaguarda, na qual marchava o próprio Zumbi. Mas nisto uma sentinela de Vieira de Melo pressentiu a furtiva coluna e abriu fogo alertando o acampamento. Os sitiadores fizeram sucessivas descargas sobre os negros e depois acometeram à arma branca.

Seguiu-se um demorado e feroz combate à beira do abismo no escuro da noite. Os palmarinos encurralados entre o despenhadeiro e o inimigo, lutavam com a bravura do desespero. Supõe-se que uns quinhentos tenham rolado pelo despenhadeiro; outros tantos tombaram mortos no local. Os que haviam podido ganhar o mato tentavam em vão se reagrupar.

A resistência palmarina se desintegrou rapidamente. Os expedicionários degolavam e matavam sem misericórdia. Pelo anoitecer deste dia 6 tudo estava acabado em Macaco. Arrasada e incendiada, a cidadela negra ardeu a noite inteira. Apenas quinhentos e dez negros apareceram vivos como prisioneiros. Depois de Macaco foi a vez das outras povoações palmarinas. Não puderam oferecer maior resistência. Por toda parte se repetiu a matança. Em rigor só ficaram com vida as mulheres e as crianças. Mesmo o número destas se reduziu rapidamente, pois as mulheres se deixavam morrer de fome ou matavam os próprios filhos para não vê-los reduzidos à escravidão. Na madrugada do dia 7, correios partiram às pressas para o litoral levando a notícia da queda do baluarte negro.

Após se certificar de que Zumbi estava vivo, imediatamente o governador lhe pôs a cabeça a prêmio.

Nos primeiros dias de novembro, um mulato chamado Antônio Soares, um dos homens de confiança de Zumbi, foi capturado e entregue à André Furtado de Mendonça, que prontamente o submeteu a torturas para que revelasse o esconderijo de Zumbi. Inicialmente o mulato se recusou a falar, mas fraquejou quando o paulista lhe assegurou em nome do governador a liberdade e a vida se entregasse Zumbi.

O esconderijo se situava em ponto recôndito da mata, provavelmente na serra Dois Irmãos, lugar de desfiladeiros, penhascos abruptos e gargantas profundas por uma das quais se precipita o rio Paraíba. Zumbi mantinha sempre junto a si uma guarda de 20 homens, mas quando Soares chegou seguido à distância pelos paulistas, a guarda se achava reduzida a 6 homens.

O grupo se aproximou cautelosamente durante a noite e tomou posição, a espera do amanhecer.

Quando amanheceu. Antônio Soares saiu do mato para uma pequena clareira e aí gritou com toda força:

Zumbi! Zumbi! Zumbi!

Seguiu-se intensa expectativa entre os paulistas emboscados no mato à roda da clareira. Alguns instantes após os gritos de Soares, apareceu Zumbi à entrada do “sumidouro”.

O drama foi rápido. Soares se encaminhou para o chefe, que o acolheu confiadamente. Então, bruscamente, Soares enterrou-lhe um punhal no estômago e deu o sinal aos paulistas. Acudido pelos companheiros e apesar de mortalmente ferido, Zumbi ainda lutou com bravura, mas não resistiu.

Deu-se isto no dia 20 de novembro de 1695.

Era necessário provar que Zumbi estava morto. Dezenas de comandantes de expedições haviam anunciado, ano após ano, ter dado morte a zumbi, a notícia logo desmentida pelo reaparecimento do chefe negro. Depois de morto o general negro fora castrado e o pênis enfiado na boca; havia-lhe arrancado um olho e decepado a mão direita. Por proposta de André furtado de Mendonça, deliberou a Câmara que se conduzisse para Recife apenas a cabeça do chefe negro. Levado o cadáver para o pátio da Câmara, aí, perante todos os oficiais, um escravo decepou a cabeça, lavrando-se “Auto de decapitação do negro Zumbi”. Salgada com sal fino, a cabeça seguiu para Recife, onde o governador Melo e Castro mandou espetá-la em um chuço no lugar mais público da cidade. E aí permaneceu até se decompor totalmente, “para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente o julgavam imortal”.

SACERDÓCIO

As pessoas estão sempre discutindo sobre quem sabe mais os fundamentos da religião. Ninguém inclusive eu, sabe o suficiente para liderar um debate sobre a tradição iorubá. Somos todos eternos aprendizes, que quanto mais tempo temos de religião mais compreendemos a necessidade de buscar mais conhecimento. 
Não é uma tarefa fácil ser ministro da religião africana. Não há religião que participe mais da vida de seus adeptos do que a de tradição de segmento afro. Na maioria dos outros cultos, após os rituais as pessoas vão embora, e os sacerdotes não participam de mais nada do cotidiano daquelas criaturas.

Nos terreiros o Pai ou Mãe de Santo, ao fazer a iniciação de um noviço, está vinculando este à sua família consanguínea, pois a partir deste momento, tudo que acontecer na vida deste indivíduo, seu sacerdote ou sacerdotisa fará parte. Sentirá junto às alegrias e as tristezas que esta pessoa enfrentar em sua vida.

Quem tem casa aberta sabe a responsabilidade que terá durante toda sua vida, perante os seus seguidores. Muitas vezes perdendo noites de sono para dar assistência à um necessitado.

Nós temos por costume acompanhar tudo, participar de todos os momentos do cotidiano de um membro de nossa religião. Se há gravidez, lá está o Pai ou Mãe de santo fazendo seguranças. Nasce o bebê, lá estamos em volta, sentindo as mesmas emoções que os pais, avós etc., se tem alguém doente, já estamos procurando a melhor maneira de tirar aquela pessoa da enfermidade. Se há problemas no relacionamento familiar ou na criação de um filho, lá está o sacerdote fazendo de tudo para harmonizar e trazer de volta a paz no lar. Se morrer um ente querido, lá está o sacerdote, fazendo tudo que pode para amenizar a dor. Se morrer um filho de santo ou um membro de nossa família religiosa, passasse dias preparando-se rituais que envolvem fundamentos, dor, tristeza e muitas responsabilidades.

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